A REVISTA LITERÁRIA MAIS ANTIGA DO BRASIL É NOSSA

mira01Santos, lar de Pelé, do Santos Futebol Clube e do maior porto da América Latina. Mais do que isso. É uma cidade de longa tradição literária, também conhecida como “Porto dos Poetas”, onde vivem e viveram grandes nomes da literatura brasileira. Entre eles, Vicente de Carvalho, Martins Fontes, Rui Ribeiro Couto, Roldão Mendes Rosa, Narciso de Andrade, Márcio Barreto, Marcelo Ariel. É também onde nasceu a Mirante, revista literária independente, criada em 1982, pelos poetas santistas Valdir Alvarenga e Antônio Canuto. Após mais de 34 anos a publicação se mantém quase nos mesmos moldes da época de seu lançamento, sendo sustentada exclusivamente pela verba captada com a venda dos exemplares e os investimentos de Valdir.

A década de 1970 foi culturalmente divida. Durante o regime Militar, até 1974, vivemos os “anos de chumbo” sob o comando do general Emílio Garrastazu Médici; em seguida, Ernesto Geisel assumiu a presidência da República e começou um lento processo rumo à democracia. Em 1978, revogou os atos institucionais do governo militar, inclusive o AI5. O teatro e a música ainda sofriam forte opressão por parte do Governo. Então, o “grito” que vinha das ruas no Brasil inteiro foi a “Poesia Marginal”.

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Valdir Alvarenga em 2015 – Foto: Armando Cândido

Nesse cenário, um jovem poeta chamado Valdir Alvarenga, nascido e criado no morro da Penha, mesmo sem saber, dava os primeiros passos que o fariam vencer onde outros, como Fernando Pessoa, por exemplo, não obtiveram o mesmo êxito. Alvarenga iria muito em breve criar a revista literária independente, que mais de 34 anos depois, se tornaria a mais antiga do Brasil ainda em atividade – A Mirante. Pessoa, em 1915, junto com outros poetas, lançou a revista Orpheu que não passou da segunda edição, já a Mirante completa em 2016, 34 anos com mais de 90 publicações.

 

No fim da década de 1970, Valdir viu no jornal Cidade de Santos o anúncio: “Feira de literatura independente no Teatro Municipal. Você que escreve traga o seu poema para expor no varal de poesia”, não teve dúvidas, decidiu participar, lá conheceu Luiz Antônio Canuto, Raul Christiano e toda a turma do Picaré, grupo santista de literatura marginal recém-criado, ao qual se juntou. Valdir, que sempre teve o sonho de publicar um livro, ao ver que todos nessa turma já tinham os seus publicados, tomou coragem e também publicou o seu. Mas não foi fácil: ele recorreu a um empréstimo para publicar seu livro Plenilúnio pela gráfica de A Tribuna e acabou “na mão” de agiotas. Foram mil exemplares, quase todos vendidos.

Já na década de 1980, Valdir convidou Canuto para juntos criarem a Mirante. A ideia não foi bem vista pelo restante do grupo que disse que, se eles levassem o projeto adiante, teriam de deixar a turma. Foi exatamente o que Canuto fez; já Alvarenga enfrentou os colegas e disse: “não, eu vou ficar no grupo, participando da revista de vocês e com a minha revista!”. Pouco tempo depois, o Picaré se desfez. Com a saída de Raul Christiano, os outros membros também se dispersaram.

Nessa época, não existiam em Santos outras revistas literárias. O mais parecido era A Barata, revista em quadrinhos de Flávio Calasanz e a já extinta Cigarra, em Santo André. Alvarenga e Calasanz muita vezes fizeram o lançamento das revistas em conjunto. Alvarenga conta que certa vez estava em um bar quando se aproximou de Vladir Lemos, que acabara de lançar um livro independente, e disse: “olha eu tenho esse livro aqui”, Alvarenga respondeu: “e eu tenho essa revista, vamos trocar?”. Assim começou a amizade entre os dois.

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Mirante 90 – especial 33º aniversário

Os números atingidos pela Mirante, separados talvez não digam muito, mas em conjunto contam uma história de perseverança e superação. Os números são, 34 anos, mais de 90  edições, centenas de autores clássicos e atuais publicados e R$ 0,00 de patrocínio. A Mirante nunca contou com patrocínio, público ou privado. Segundo Alvarenga por dois motivos distintos. Por preguiça dele em ir atrás de patrocínio; mas a principal causa é o espirito de liberdade da revista: “eu posso estar enganado, mas eu acho que se a Mirante tivesse patrocínio ela talvez tivesse acabado”. A revista hoje vive apenas da vendagem e do investimento de Alvarenga.

 

A Mirante tem um estilo diferenciado, mistura poesia, crônica, fotografia, desenho e outras artes, além de contar um pouco da história da literatura. Mas um dos objetivos principais da revista é dar a oportunidade aos poetas iniciantes de terem seus trabalhos publicados em um veículo impresso ao lado de nomes centenários da literatura como: Augusto dos Anjos, Mário Pederneiras, José J. Veiga e tantos outros. Por isso é uma grande incentivadora de novos autores, ou não tão novos assim como no caso relatado por Alvarenga sobre a poetisa santista Maria José Goldschmidt, autora do livro “Lua Rouxinol”, que certa vez lhe confessou: “Valdir, se não fosse a Mirante eu teria parado de escrever”.

O poeta afirma procurar um mínimo de qualidade nos textos que recebe, mas releva muita coisa por que “quem está iniciando não domina muito a arte e as técnicas”. Já sobre os trabalhos de autores mais conhecidos, Valdir conta que sempre leu muito para conhecer “novos” poetas. Com a chegada da internet, as pesquisas para revista se expandiram e atravessaram fronteiras; hoje ele pode conhecer poetas de outros países. Confessou que algumas vezes é um pouco “cara de pau” e publica trabalhos de poetas que encontra em suas pesquisas sem pedir autorização.

Alvarenga confessa que gostaria que houvesse mais revistas literárias na região. Ele lembra de duas ao longo desses 34 anos: Poetizando, que para ele era uma cópia mal feita da Mirante, mas que não teve uma vida muito longa, e Cabeça Ativa, um revista temática, de autoria do casal Claudia Brino e Vieira Vivo.

Quando questionado sobre o atual cenário da literatura e da poesia, Alvarenga diz não acreditar que o número de autores tenha diminuído, mas faz ressalvas ao afirmar que tenha aumentado porque, segundo ele, nem todos que se dizem poetas hoje têm a qualidade necessária para merecer esse título. Já a Poesia Marginal perdeu forças. Valdir lembra que nos anos do governo Telma, eram realizados “Varais de poesia”, quase que semanalmente, com infraestrutura adequada. Lembra que o primeiro foi realizado na Praça Mauá, com painéis onde estavam expostos trabalhos de Ana Cristina César, Torquato Neto e Manoel Bandeira, entre outros.

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Algumas Capas da Mirante ao longo dos anos
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